
A Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting (FPAK) terá de decidir, mais cedo ou mais tarde, o que pretende realmente fazer com o Campeonato Promo de Ralis para o futuro ou, pelo menos, para 2027.
A competição, criada há cerca de quatro ou cinco anos e apresentada como uma espécie de sucessora do antigo Campeonato Open de Ralis, nunca conseguiu alcançar uma expressão verdadeiramente relevante, seja pelo número de concorrentes, seja pelo interesse demonstrado pelos clubes organizadores.
A passagem do Open para o Promo foi precipitada e assentou numa ideia que, na teoria, até fazia sentido: criar um patamar intermédio entre o Campeonato de Portugal de Ralis e os campeonatos regionais do continente. Na prática, esse objetivo nunca foi atingido.
A FPAK pretendia aproveitar a dimensão alcançada pelo Open e incentivar alguns dos seus concorrentes a aproximarem-se do principal campeonato em Portugal. Porém, o aumento dos custos de participação, das inscrições e da própria logística necessária para disputar provas espalhadas por todo o país afastou a maioria dos potenciais interessados. O Campeonato Promo acabou, assim, por ficar demasiado próximo do Campeonato de Portugal de Ralis em termos financeiros, sem oferecer o mesmo retorno desportivo, mediático ou competitivo.
É verdade que a edição anterior chegou a proporcionar alguma disputa pelo título. Contudo, essa luta esteve praticamente limitada a dois pilotos, que fizeram uma aposta forte na competição e participaram regularmente nas provas. Pontualmente surgiram outros concorrentes, mas sem um número de participações suficiente para garantirem uma classificação final relevante (não realizaram o número mínimo de provas). Na prática, o campeonato terminou com apenas dois ou três pilotos classificados, um número manifestamente reduzido para uma competição com estatuto nacional.
Apesar disso, a FPAK decidiu manter o Campeonato Promo em 2026 no calendário e voltou a apresentar uma temporada com dez provas, distribuídas de norte a sul do país. Trata-se de um programa de provas extenso, exigente e muito dispendioso, sobretudo para uma competição que deveria funcionar como segundo nível dos ralis nacionais.
Ao longo desta temporada (até agora) existem cerca de duas dezenas de pilotos classificados, existindo até vários vencedores diferentes (quatro em outras tantas provas). No entanto, esse dado é enganador. Muitos dos concorrentes participaram apenas porque estavam inscritos nas provas do Campeonato de Portugal ou noutras competições realizadas em simultâneo. Poucos assumiram, desde o início do ano, o Campeonato Promo como objetivo desportivo.
Atualmente, apenas dois pilotos parecem manter alguma possibilidade ou interesse em completar o número de provas necessário para discutir o título. Os restantes vão participando pontualmente, sem uma estratégia específica para o campeonato.
Um campeonato sem identidade própria
O principal problema do Campeonato Promo é a ausência de uma identidade clara. Não serve verdadeiramente os pilotos que pretendem evoluir dos campeonatos regionais para o Campeonato de Portugal de Ralis. Também não funciona como uma segunda divisão competitiva, capaz de preparar equipas, pilotos e organizadores para o nível seguinte.
Ao mesmo tempo, pouco ou nada acrescenta às provas do Campeonato de Portugal de Ralis. Os concorrentes utilizam viaturas semelhantes aos regionais, enfrentam custos elevados e percorrem praticamente o mesmo calendário, mas disputam uma classificação com escassa visibilidade e reduzido valor desportivo.
A diferença fundamental em relação ao antigo Open está precisamente na base em que cada competição foi construída. O Open beneficiava da dinâmica dos campeonatos regionais, das provas mais acessíveis e de uma maior proximidade geográfica entre concorrentes e organizações. O Promo foi colocado, em grande parte, em cima das provas do Campeonato de Portugal de Ralis, herdando os respetivos custos e exigências. Essa opção retirou-lhe grande parte da atratividade.
Reduzir o calendário e aproximar o Promo dos regionais
Uma das soluções possíveis passaria por reduzir substancialmente o número de provas. Um calendário com seis ralis — dois no Norte, dois no Centro e dois no Sul — permitiria manter o caráter nacional da competição, mas com custos mais controlados.
O Campeonato Promo poderia voltar a ser construído com base em provas dos campeonatos regionais, aproveitando o facto de a tipologia de viaturas admitida ser semelhante. Dessa forma, seria possível reforçar simultaneamente os regionais e criar uma verdadeira competição nacional de acesso ao escalão mais alto.
Os pilotos poderiam reduzir despesas de deslocação e, ao mesmo tempo, competir por um título nacional. Uma fórmula deste género poderia recuperar parte do espírito que tornou o antigo Open tão popular.
Outra hipótese seria transformar o Promo numa verdadeira segunda divisão do Campeonato de Portugal de Ralis. Nesse modelo, poderiam existir mecanismos de subida e descida de provas entre os diferentes campeonatos. Ralis provenientes dos regionais poderiam candidatar-se ao Promo e, depois de demonstrarem capacidade organizativa, avançar para o Campeonato de Portugal. Da mesma forma, provas que deixassem de reunir condições para permanecer no principal campeonato poderiam integrar temporariamente o segundo nível.
Esta estrutura permitiria criar uma verdadeira pirâmide competitiva, não apenas para pilotos e equipas, mas também para os clubes organizadores.
Uma competição que precisa de ser repensada
O Campeonato Promo de Ralis, tal como está atualmente desenhado, encontra-se desportivamente enfraquecido. Tem poucos concorrentes verdadeiramente empenhados, reduzida competitividade e uma identidade difícil de explicar.
É perfeitamente legítimo que os pilotos participantes no Promo procurem conquistar o título e beneficiar da visibilidade associada às provas do Campeonato de Portugal. O problema não está nos concorrentes, mas no modelo da competição.
Manter um campeonato apenas para atribuir mais um título nacional não é suficiente. Um campeonato precisa de ter concorrência, objetivos desportivos claros, sustentabilidade financeira (sobretudo para os pilotos) e capacidade para contribuir para o desenvolvimento da modalidade.
A FPAK deverá, por isso, aproveitar a preparação da temporada de 2027 para rever profundamente o Campeonato Promo de Ralis. Poderá reduzi-lo, aproximá-lo dos regionais, transformá-lo numa verdadeira segunda divisão ou até integrá-lo como classificação específica dentro de outra competição. O que dificilmente fará sentido será mantê-lo exatamente como está.
Sem alterações estruturais para 2027, o Campeonato Promo continuará a existir no regulamento e no calendário, mas permanecerá praticamente irrelevante do ponto de vista desportivo… tal como acontece já hoje.


