
Os ralis de terra estão a desaparecer dos campeonatos regionais. Não é propriamente uma novidade, porque esta tendência já se vinha desenhando há alguns anos, mas chegámos a um ponto em que a situação merece uma reflexão mais profunda. Sobretudo quando olhamos para os Campeonatos Centro e Norte, onde a terra passou de presença habitual a quase uma exceção.
Retiremos desta análise o Campeonato Sul. Não porque deva ficar fora da discussão, mas precisamente porque é o melhor exemplo de como ainda é possível manter provas de terra num Regional. O Sul tem conseguido preservar um calendário relativamente equilibrado, normalmente com seis ou sete provas, sem entrar na lógica dos calendários com nove ou dez ralis que já vimos noutras regiões. E esse equilíbrio tem sido importante para manter provas tradicionais em terra. Os próprios pilotos que disputam esta competição querem ter ralis de terra e preparam as suas temporadas com base também nos ralis de terra e não apenas de asfalto.
É nesse equilíbrio que encontramos, provavelmente, uma das principais razões para aquilo que está a acontecer no Centro e no Norte: há provas a mais nos calendários.
Quando existem oito, nove ou até dez ralis num campeonato, os clubes naturalmente procuram soluções que sejam mais simples e economicamente sustentáveis. E organizar um rali em asfalto é, regra geral, mais fácil e mais barato do que organizar uma prova em terra.
A terra obriga a preparar caminhos, recuperar pisos antes ou depois da prova e implica um investimento adicional por parte dos clubes e, sobretudo, das autarquias que os apoiam. Num contexto em que os custos de organização continuam a aumentar, torna-se fácil perceber porque é que muitos municípios preferem apoiar provas disputadas em estradas asfaltadas.
Mas existe outro problema, talvez ainda mais importante (e também já abordado antes): os próprios pilotos deixaram de ter razões para investir na terra.
Se um campeonato tem oito provas de asfalto e apenas uma de terra, que incentivo tem um concorrente para preparar o carro especificamente para essa única prova? Muito pouco ou nenhum mesmo!!!
Ainda mais quando os regulamentos permitem descartar resultados. Para um piloto com um orçamento limitado, é muito mais racional concentrar toda a época num único tipo de piso. Preparar suspensões, proteções, pneus e restante material específico para disputar apenas uma prova em terra deixa de fazer sentido económico. O resultado é previsível, e quando chega essa prova, muitos simplesmente não participam.
Depois surge o efeito de bola de neve. Há poucos pilotos interessados porque existem poucas provas de terra. As organizações percebem que as provas de terra têm menos participantes e começam a preferir o asfalto. Havendo ainda menos provas, os pilotos investem ainda menos nesse tipo de piso… até que a terra desaparece.
Foi praticamente isso que aconteceu no Campeonato Centro. Provas que durante anos estiveram associadas à terra passaram para o asfalto e, com essa mudança, desapareceu do calendário regional um tipo de piso que fazia parte da identidade dos ralis naquela região. Essa é ainda uma questão histórica que não pode ser ignorada. Muitas zonas que durante décadas foram sinónimo de ralis de terra deixaram simplesmente de ter provas. Arganil, Lousã, Vila Nova de Poiares, Mortágua, Oliveira do Hospital e outras regiões do Centro (chegou a haver o troféu regional centro só com ralis de terra) tinham estradas e troços intimamente ligados à história dos ralis portugueses. Quando essas provas desaparecem, desaparece também uma cultura organizativa, um conhecimento dos terrenos e uma tradição que depois é muito difícil recuperar.
Também os automóveis mudaram. Competir em terra implica um desgaste significativo e custos que dificilmente se comparam com aqueles de outros tempos. Material, suspensões, transmissões, proteções e manutenção tornam uma participação em terra particularmente exigente para equipas com orçamentos reduzidos.
Perante tudo isto, talvez seja necessário questionar se a solução não deverá partir também da própria regulamentação dos campeonatos. Será realmente necessário termos regionais com nove ou dez provas? Na minha opinião, não.
Um campeonato regional com seis ou sete provas parece-me mais equilibrado, mais acessível para pilotos e organizações e, sobretudo, permitiria introduzir uma verdadeira diversidade de pisos.
Porque não determinar que, num campeonato com seis provas, três sejam de terra e três de asfalto? Ou, num calendário com sete, garantir pelo menos três provas obrigatórias num dos pisos?
E porque não exigir também que, para ficar classificado no campeonato, um piloto tenha de participar num número mínimo de provas em cada tipo de piso? Duas em terra e duas em asfalto, por exemplo.
Poderá parecer uma imposição. Mas sem alguma forma de proteção regulamentar, a tendência parece evidente: o caminho mais fácil e mais económico vai continuar a ganhar. E esse caminho é o asfalto.
Não se trata de defender a terra contra o asfalto. Os ralis precisam dos dois. Aliás, essa sempre foi uma das riquezas da modalidade e da origem dos regionais: um piloto verdadeiramente completo tinha de saber ser rápido no asfalto e na terra, adaptar afinações, condução e rapidez a pisos completamente diferentes. Se os campeonatos regionais se transformarem quase exclusivamente em campeonatos de asfalto, estaremos a perder parte dessa diversidade.
Refiro ainda uma outra razão, pela qual os ralis de terra se deveriam manter nos regionais: o espetáculo. Para além de gostar mais de ralis de terra do que de asfalto, é inegável que a terra proporciona normalmente um espetáculo melhor, mais emocionante e mais completo.
E talvez este seja o momento certo para agir, antes que a pergunta deixe de ser “porque há cada vez menos ralis de terra?” e passe a ser uma bem mais difícil de responder: “Como podemos voltar a ter ralis de terra?”



