
A saída do Vodafone Rally de Portugal do Campeonato do Mundo de Ralis em 2027 apanhou praticamente toda a gente de surpresa. Adeptos, entidades públicas e, aparentemente, muitos dos parceiros que têm sustentado a realização da prova não esperavam que um dos mais emblemáticos ralis do Mundial ficasse de fora do calendário.
A surpresa é ainda maior porque, até há poucos meses, tudo apontava noutra direção. Viseu tinha sido anunciado como centro operacional da prova para os próximos três anos e chegou a estar prevista uma ação de promoção do Rally de Portugal durante a Feira de São Mateus. Essa iniciativa acabou por não acontecer. Isoladamente, poderia não significar nada. Vista agora à luz dos acontecimentos, ganha outra leitura.
Também em julho, numa conversa que mantive com um responsável do Automóvel Club de Portugal, fiquei com a perceção de que existia alguma indefinição quanto à edição de 2027. Na altura, foi-me explicado que pouco estava fechado porque o novo promotor do WRC iria assumir funções e pretendia introduzir alterações na filosofia e no formato do campeonato.
Havia ainda uma questão importante: o modelo do Rally de Portugal assenta fortemente no envolvimento de municípios das regiões Centro e Norte. É essa realidade que permite à prova passar por diferentes territórios, mas que também implica longas ligações e uma estrutura logística complexa. E esse modelo parecia não encaixar totalmente nas ideias que estavam a ser defendidas para o futuro do campeonato.
Mesmo assim, ninguém esperava o desfecho agora anunciado.
O comunicado do ACP é claro quanto ao essencial: o Rally de Portugal fica fora do Mundial de 2027, numa decisão atribuída ao objetivo do novo promotor de tornar o campeonato geograficamente mais diverso e mais intercontinental. A prova tinha inclusivamente uma data prevista, entre 13 e 16 de maio.
O mesmo comunicado refere que já existem conversações para avaliar um eventual regresso em 2028. E é precisamente a palavra “possibilidade” que merece atenção. Não existe, pelo menos publicamente, uma garantia de que Portugal regressará ao WRC logo no ano seguinte.
Há, por isso, demasiadas perguntas por responder. O Rally de Portugal vai realizar-se em 2027 fora do Mundial? Poderá integrar o Campeonato de Portugal de Ralis ou outra competição internacional? Que consequências terá esta ausência para o calendário nacional? Que impacto terá nos municípios e regiões que há anos investem na prova?
Quando procurámos obter mais esclarecimentos junto do ACP, a resposta foi que não havia nada a acrescentar ao comunicado. É legítimo, mas dificilmente será suficiente perante a dimensão desta decisão. Até porque as entidades de turismo do Centro e do Norte já manifestaram publicamente a necessidade de obter explicações.
Depois existem as especulações. Fala-se dos custos financeiros associados à permanência no Mundial. Fala-se de questões relacionadas com a segurança da edição de 2026. Fala-se ainda de alterações na influência portuguesa junto das estruturas internacionais do automobilismo. Mas, neste momento, tudo isso é apenas especulação e deve ser tratado como tal.
Há ainda outro elemento que inevitavelmente desperta curiosidade. Na véspera do anúncio da saída do Rally de Portugal do Mundial foi apresentado o Rally 6 Cidades do Norte, prova que assinou um acordo de três anos para integrar o Campeonato Europeu de Ralis. Um dos responsáveis envolvidos no projeto admitiu publicamente a ambição de, no futuro, chegar ao WRC.
Ter ambições é perfeitamente legítimo. E a coincidência de datas (entre as duas declarações) pode ser apenas isso mesmo: uma coincidência. Mas também contribui para aumentar as dúvidas sobre quem sabia o quê e quando soube da decisão relativa ao Rally de Portugal.
O que não deve ficar perdido no meio de todas estas questões é a dimensão do Rally de Portugal. Estamos a falar de uma prova com décadas de história no Campeonato do Mundo, com enorme reconhecimento internacional, milhares de adeptos nas estradas e um impacto económico e turístico muito significativo nos territórios por onde passa. O Rally de Portugal não é apenas um evento desportivo. É também uma marca de Portugal.
Por isso, uma decisão desta dimensão merece mais do que um comunicado de poucas linhas.
O ACP, enquanto organizador, terá certamente mais informação e terá também de gerir negociações que nem sempre podem ser feitas na praça pública. Isso é compreensível. Mas há municípios, regiões de turismo, patrocinadores, equipas, adeptos e milhares de pessoas ligadas direta ou indiretamente à prova que merecem perceber melhor o que aconteceu.
Porque o mais preocupante talvez nem seja o Rally de Portugal não estar no Mundial em 2027. É não sabermos, neste momento, se esta ausência será apenas de um ano. E, sobretudo, não sabermos exatamente porquê.



