
Os incidentes registados este ano no Rali de Portugal e no Rali de Castelo Branco voltaram a mostrar que a segurança não se garante apenas com um plano bem escrito. Exige meios, coordenação, informação, bom senso e a participação de todos os que fazem parte de uma prova.
A segurança nos ralis voltou a estar no centro da discussão. E voltou pelas piores razões: porque ocorreram situações que nunca deveriam acontecer e que, felizmente, terminaram sem consequências graves. Quando assim é, existe sempre a tentação de considerar o episódio encerrado. Não deveria ser assim. Cada caso destes deve servir para rever procedimentos, identificar falhas e evitar que a sorte seja confundida com eficácia.
No Rali de Castelo Branco e Vila Velha de Ródão, uma viatura particular entrou no percurso da PEC 6 e cruzou-se, em sentido contrário, com João Barros. O automóvel terá acedido à classificativa através de um caminho de terra, depois de o condutor ter sido impedido de entrar por uma zona controlada. A situação foi resolvida “por sorte” sem qualquer incidente ou acidente, mas o desfecho poderia ter sido muito diferente. Mais do que apontar o dedo a uma organização em particular, importa perceber como foi possível existir um acesso vulnerável a uma estrada que já estava fechado para a competição.
Poucas semanas antes, o Rali de Portugal também tinha registado incidentes graves em Arganil 2. Elfyn Evans encontrou um reboque a circular dentro do troço quando já estava em prova e outro veículo a circular no mesmo troço levaram à interrupção da especial. Falamos da principal prova de ralis disputada em Portugal, integrada no Campeonato do Mundo e dotada de um dispositivo de segurança incomparavelmente superior ao de qualquer outro rali nacional.
Se acontece ali, apesar dos meios existentes, fica demonstrado que nenhum plano é infalível e que basta um acesso descontrolado, uma indicação mal compreendida ou uma decisão individual para criar uma situação de enorme perigo.
A comparação entre o Rali de Portugal e as restantes provas nacionais é, ainda assim, inevitável. O evento mundialista está num patamar elevadíssimo. O policiamento nas estradas e nos acessos, o número de comissários de estrada, a definição das zonas destinadas ao público, os meios de socorro, as comunicações e os sucessivos controlos antes da passagem dos concorrentes obedecem às exigências do WRC e são reforçadas até pela própria organização. É um dispositivo muito vasto, difícil (para não dizer impossível) de replicar noutra prova.
No Campeonato de Portugal de Ralis, e ainda mais nos campeonatos regionais, a realidade é outra. Os orçamentos são muitíssimo inferiores, o policiamento e os meios de socorro representam custos cada vez mais elevados e tornou-se mais difícil recrutar voluntários e marshall´s em número suficiente. Em muitos troços não existem verdadeiras zonas de espetáculo definidas e os recursos disponíveis para acompanhar todos os locais onde o público se instala são manifestamente escassos. A diferença de meios entre o Rali de Portugal e os restantes ralis é enorme e está à vista de quem acompanha regularmente os ralis em Portugal na estrada.
Esta realidade financeira e humana tem de ser reconhecida, mas não pode servir para baixar a exigência. A segurança é a primeira condição para que uma prova se realize. Nenhum organizador consegue colocar um agente da autoridade em cada cruzamento, nem um marshall em todos os caminhos florestais, agrícolas ou de acesso a habitações. Contudo, é indispensável identificar previamente esses pontos, avaliar o risco de cada um e definir quem os controla, como são fechados e de que modo se confirma que permanecem seguros até à passagem do último carro.
Também é necessário melhorar a articulação entre organizações, forças de segurança, bombeiros, autarquias, juntas de freguesia, proprietários e populações locais. As indicações têm de ser claras e chegar a quem vive ou trabalha junto ao percurso. Uma estrada fechada no mapa da prova pode continuar a ser, para um morador ou para quem trabalha no campo, o caminho habitual para casa ou para uma propriedade. É precisamente aí que a informação antecipada e o contacto local podem evitar uma entrada inadvertida ou deliberada no troço.
As zonas destinadas aos espectadores devem igualmente ser definidas e assinaladas com maior rigor. Não basta proibir: é preciso oferecer alternativas realistas, em locais onde seja possível ver o rali com segurança. A fita e a sinalização ajudam, mas não substituem a presença de pessoas preparadas, capazes de explicar as regras e de intervir com autoridade e bom senso. Um excesso de rigidez pode, por vezes, empurrar o público para um local pior. Facilitar uma deslocação controlada pode ser a opção mais segura. Segurança e bom senso não são conceitos incompatíveis.
A comunicação deve começar muito antes da prova. Na divulgação dos acessos devem estar também as normas de segurança, repetidas tantas vezes quantas forem necessárias. Mapas, redes sociais, comunicados, rádio local, folhetos e sinalização no terreno podem transmitir a mesma mensagem de forma simples e coerente. Clubes, pilotos, equipas, patrocinadores e órgãos de comunicação têm audiências comuns e todos podem ajudar a amplificar esse trabalho pedagógico em prol da segurança.
A imprensa credenciada pode, aliás, ser um aliado mais ativo. Uma credencial poderia incluir um número de contacto ou o acesso a um canal reservado de mensagens (whatsapp) para comunicar rapidamente uma viatura num acesso, público mal colocado, uma fita retirada ou qualquer outra situação de risco. Fotógrafos e jornalistas percorrem zonas muito distintas de uma classificativa e podem acrescentar dezenas de olhos ao dispositivo, sem substituir quem tem responsabilidades formais pela segurança.
Há ainda um aspeto que depende diretamente das organizações: a atuação dos carros 000, 00 e 0. Os dois primeiros não estão em competição e a sua missão principal é verificar o fecho da estrada, os acessos, a colocação do público e o funcionamento do dispositivo. Não devem atravessar os troços como se estivessem a disputar um tempo. A passagem a velocidades desnecessárias, os despistes e até os problemas mecânicos provocados por uma condução imprudente (que acontecem com muita regularidade), contrariam a razão pela qual esses carros estão na estrada. O carro 0 circula já a um ritmo mais próximo do de prova, mas também ele cumpre uma função de segurança e não uma classificativa.
O público também tem de ser chamado a assumir responsabilidades. Quem acompanha um rali pode e deve alertar alguém que se encontra num local perigoso, impedir que uma fita seja removida e comunicar uma situação anormal. Num tempo em que é cada vez mais difícil ter polícia e comissários em todos os pontos, transformar os espectadores em agentes de segurança é essencial. Não se trata de transferir para eles a obrigação das organizações, mas de criar uma cultura coletiva de prevenção. Neste caso trazer para todos os outros ralis as normas de segurança que vemos no Rali de Portugal.
A Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting poderia e deveria liderar uma campanha nacional permanente, com um vídeo institucional curto, de 30 a 60 segundos, sobre a segurança nos ralis. Esse conteúdo deveria ser partilhado antes e durante cada prova, pelos clubes, equipas, pilotos, municípios, juntas de freguesia e órgãos de comunicação. Uma mensagem comum, repetida ao longo da época, teria mais força do que avisos ocasionais publicados apenas quando acontece um incidente.
É indiscutível que os ralis evoluíram muito desde as décadas de 1970 e 1980. As organizações estão mais preparadas, os carros são mais seguros e o público está, em geral, mais consciente.
O risco nunca desaparecerá por completo de uma modalidade disputada em estradas públicas e ao longo de muitos quilómetros. A obrigação de todos é reduzi-lo até ao limite do possível. Os casos do Rali de Portugal e do Rali de Castelo Branco, tal como muitos outros registados no passado, devem ser encarados como avisos. Não é preciso esperar por uma nova tragédia, para fazer melhor. Nos ralis, a sorte pode evitar um acidente, mas nunca pode ser o plano de segurança… e muitos vezes tem sido.



