
Quando, na apresentação do Campeonato de Portugal de Ralis 2026, realizada antes do Rali Terras d’Aboboreira, o presidente da FPAK, Ni Amorim, anunciou que os relatórios de avaliação das provas passariam a ser divulgados. Muitos viram nessa decisão um importante passo em frente na transparência organizativa do campeonato e das provas que o compõem.
No entanto, volvidos vários meses e disputadas já algumas das principais provas da temporada (três), a realidade é bem diferente. Até ao momento, apenas foram tornadas públicas as pontuações finais atribuídas a cada rali, permanecendo desconhecidos os relatórios completos que sustentam essas classificações.
A situação levanta inevitavelmente dúvidas e interrogações. As pontuações divulgadas permitem verificar que existem diferenças entre as provas, mas não explicam a origem dessas diferenças. Um dos exemplos mais evidentes surge na comparação entre o Rali Terras d’Aboboreira e o Rally de Lisboa, cujas avaliações finais apresentam uma diferença na ordem dos 72 pontos.
O problema não está na existência dessa diferença, mas sim na impossibilidade de compreender os critérios concretos que a justificam. Sem acesso aos relatórios, continua a ser impossível perceber em que áreas cada prova foi mais ou menos penalizada e qual o peso efetivo de cada critério na classificação final.
É verdade que os modelos de avaliação são públicos e podem ser consultados através do portal da FPAK. Conhecem-se, por isso, os parâmetros avaliados. O que continua por conhecer é a forma como esses critérios foram classificados pelos “avaliadores” em cada prova (e nem todos avaliaram para já estas três provas). E é precisamente aí que reside a questão central.
Muitos dos parâmetros avaliados assentam em apreciações que são de algum modo subjetivas, deixando margem para interpretações diferentes consoante os factos e o enquadramento de cada prova. Sem acesso aos relatórios detalhados, torna-se impossível perceber se determinadas pontuações resultam de falhas objetivas das organizações ou de avaliações mais ou menos exigentes por parte dos observadores.
A divulgação apenas da nota final acaba por retirar contexto às classificações e alimentar inevitáveis especulações entre organizadores, equipas, pilotos, adeptos e jornalistas. Afinal, se o objetivo era aumentar a transparência do processo, limitar a informação às pontuações finais fica muito aquém daquilo que foi inicialmente anunciado.
Num campeonato em que os relatórios organizativos podem influenciar a atribuição de provas, o prestígio das organizações e a própria definição do calendário futuro, a transparência deveria ser total. A publicação integral dos relatórios permitiria não só compreender as classificações atribuídas, mas também identificar áreas de melhoria e valorizar o trabalho desenvolvido pelas organizações.
Enquanto os documentos continuarem por divulgar, manter-se-á praticamente a mesma realidade dos últimos anos. E, inevitavelmente, continuarão as dúvidas, as interpretações e as comparações que poderiam ser facilmente esclarecidas através da publicação dos relatórios completos.
A expectativa criada no início da temporada apontava para uma nova era de transparência. Para já, aquilo que chegou ao domínio público ficou bastante aquém dessa promessa. É caso para dizer: “A montanha pariu um rato”.




