
Não nos podemos queixar do espetáculo que têm sido a maioria das provas do Campeonato de Portugal de Ralis dos últimos anos, nem nos podemos envergonhar (antes pelo contrário) do plantel que temos tido a disputar a nossa maior competição automobilística.
O investimento que equipas e pilotos têm feito no Campeonato de Portugal de Ralis é notável, mesmo nas duas rodas motrizes. Bons carros, bons pilotos e boas equipas com estruturas técnicas muito competentes, marcaram definitivamente, os últimos anos do CPR, o que só por si deveria ser suficiente para que as algumas organizações também tivessem elevado o nível das suas organizações e a FPAK tivesse, há vários anos, uma estratégia definida e clara para os ralis, pelo menos a médio prazo.
Algumas organizações, de facto, não o fizeram, como estagnaram e pararam no tempo (o mesmo é dizer que ficaram para trás, sendo mesmo superadas por organizações de provas dos campeonatos regionais), e como não têm meios, nem competências operacionais para subir a parada, então jogam no tabuleiro político, o das influências e do poder, para tentarem manter a todo o custo as suas débeis provas no Campeonato de Portugal de Ralis. E a verdade é que conseguem alcançar os seus objetivos, como se percebe pela recente publicação do calendário do Campeonato de Portugal de Ralis para 2026.
A inenarrável ACOR (sim, essa associação de clubes de ralis), à qual não se conhece nenhuma medida estruturante para o desenvolvimentos dos ralis e das provas, sobretudo as que integram o Campeonato de Portugal de Ralis, existe muito possivelmente apenas para manter os lobbies ativos de alguns desses organizadores que não conseguem acompanhar a evolução, atuando sempre pela descrição, como opção estratégica para atingir os seus fins (legítimos). Não se saber o que pensa, o que faz e o que quer para os ralis, é meio caminho para se poder levantar todo o tipo de questões sobre a utilidade desta associação.
No final de tudo isto quem decide é a FPAK, que segundo parece (também não o divulgou publicamente) mas tem um novo diretor geral para os ralis. Não se antevê um trabalho fácil para este novo diretor geral, quando começar a lidar com os interesses instalados dos diversos clubes, que continuam em insistir em nada mudar para reinar. O problema é que a FPAK deixa que seja assim, quando não devia ser permeável aos lobbies e interesses, nomeadamente a partir do momento em que tem meios para poder decidir de forma segura e coerente.
Tudo isto para dizer que o calendário do Campeonato de Portugal de Ralis de 2026, recentemente apresentado e divulgado pela FPAK, é a mostra clara do que disse antes. Primeiro, porque não atende à realidade atual dos ralis, nem da enorme escalada de custos que se tem vindo a assistir no Campeonato de Portugal de Ralis. A quase totalidade dos pilotos do CPR são privados, correm com patrocínios ou com apoios comerciais (ou ainda com investimento próprio) e o que acontece é que são poucos os que conseguem marcar presença em todas as provas (analisem o que se passou em 2024 e 2025).
Depois aumentar (em uma prova mais) o calendário é um absurdo, que só se justifica pela permeabilidade da FPAK aos lobbies e às políticas. Se assim não fosse, e tendo na sua posse os relatórios das provas, a FPAK sabe muito bem quais foram as provas menos pontuadas e teria toda a legitimidade de as despromover (seja que rali for, pois só faltava haver lugares cativos).
Também inaceitável é a descriminação de duas provas em relação às restantes. Obrigar à escolha de qual a quarta prova a pontuar é uma aberração total, mas também um desrespeito para com o Rali de Castelo Branco e um presente envenenado para esta prova e para o recém promovido Rally de Lisboa. Felizmente que não consta para já em qualquer regulamento de que serão apenas estas duas provas que estão sujeitas a perder o lugar no CPR de 2027 (já se sabe que em 2027 volta a haver um CPR com 8 provas), pois acredito que outras duas continuarão a ser em 2026 as menos boas do calendário, como tem acontecido nos últimos anos (podem mostrar-me os relatórios para saber se estou enganado?).
Há muitos anos que digo que o Rally de Portugal deveria estar fora do calendário do Campeonato de Portugal de Ralis. Não se percebe na prática a sua manutenção, ano após ano, neste calendário, pois para mim o argumento da visibilidade não é suficiente. Basta ver os inscritos do CPR nesta prova nos últimos anos e até a FPAK já retirou os duas rodas motrizes da mesma. Porque será, se a prova dá assim tanta visibilidade?
Também a organização do campeonato em terra / asfalto perdeu-se. Agora começa-se em asfalto, passa para terra, depois asfalto e a terminar novamente com duas provas em terra. Pessoalmente gostava mais como estava em 2024, mas entendeu que não se pode passar um Vidreiro para terra, nem um Serras de Fafe para asfalto.
Não quero aqui falar pela parte dos pilotos, mas não me parece que os mesmos tenham sido ouvidos sobre a elaboração do novo calendário. São eles, quer se queira, quer não, que pagam grande parte da festa que são os ralis do Campeonato de Portugal de Ralis. O papel dos pilotos e das suas equipas é fundamental e por isso devem ser ouvidas… e muitos deles e delas não foram.
O drama de tudo isto ruir acontecerá no dia em que a maioria dos pilotos e projetos atuais do Campeonato de Portugal de Ralis deixarem de marcar presença (vejam o que tem acontecido de 2023 a 2025). A tendência é essa, atendendo a que os jovens pilotos a emergir não têm meios para fazer uma época de Rally2, nem pilotos consagrados que queriam continuar ou voltar ao CPR o conseguem fazer ao volante dos Rally2. Os custos são altíssimos, a promoção do Campeonato de Portugal de Ralis é quase inexistente e alguns clubes não sabem ou não a conseguem fazer.
Não há uma estratégia para os ralis há cinco anos, não há uma política de comunicação e promoção, e o que existe é um total desnorte, como se viu em 2025, com medidas regulamentares absurdas, classificações suspensas, pilotos contra pilotos e equipas contra equipas, processos em tribunal, providências cautelares, etc, etc. Não seriam muitas destas coisas evitáveis? O calendário do Campeonato de Portugal de Ralis de 2026 veio resolver todas estas questões?
Bons ralis, mas em segurança!!!
Paulo Homem
Diretor www.ralisonline.net



