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Os regionais devem ser dos pilotos dos regionais

CAMPEONATO NORTE, CENTRO E SUL DE RALIS

Deve existir uma classificação única e absoluta nos ralis dos Campeonatos Centro, Norte e Sul? A resposta pode dividir opiniões. Para uns, sim, porque todos disputam os mesmos troços, no mesmo rali, contra o mesmo cronómetro. Para outros, não, porque nem todos competem, na verdade, no mesmo campeonato. Inclino-me claramente para esta segunda visão.

Os campeonatos regionais devem ser protegidos naquilo que são: competições destinadas a pilotos e carros enquadrados num regulamento próprio, pensado para uma determinada realidade competitiva, financeira e desportiva. Centro, Norte e Sul têm a sua razão de existir, os seus protagonistas, as suas lutas e os seus equilíbrios. Por isso, apenas os carros admitidos regulamentarmente nesses campeonatos deveriam poder figurar na classificação geral da prova pontuável para o respetivo campeonato.

Nos últimos tempos, a presença de viaturas de categorias superiores, nomeadamente Rally2 e outros carros claramente acima da realidade técnica dos regionais, tem trazido um acréscimo evidente de interesse às provas. É inegável. Esses carros chamam público, dão visibilidade mediática, aumentam o nível do espetáculo e valorizam os ralis. Não se trata, por isso, de fechar a porta a esses concorrentes. Pelo contrário: são bem-vindos. O problema está no enquadramento que lhes é dado.

Quando existe uma classificação única e absoluta, estes pilotos acabam naturalmente por assumir o protagonismo desportivo da prova. Pela capacidade dos carros, pela experiência de alguns pilotos e pela diferença de andamento, passam a ser eles os vencedores absolutos do rali. Só que, na prática, não disputam o campeonato regional, não pontuam para ele e nem sequer estão enquadrados no regulamento técnico que define essa competição. O resultado é uma situação difícil de justificar: quem vence a prova pode não ter qualquer relevância para o campeonato que essa mesma prova integra.

Isto retira protagonismo aos verdadeiros concorrentes dos regionais. São esses pilotos, que fazem o campeonato ao longo do ano, que investem dentro das regras, que lutam pelos pontos e que procuram dar retorno aos seus patrocinadores, que deveriam estar no centro da narrativa competitiva. No entanto, muitas vezes acabam remetidos para segundo plano. Podem ser os mais pontuados para o campeonato, podem até vencer “entre os seus”, mas não são apresentados como vencedores absolutos da prova. E isso, mediaticamente, faz toda a diferença.

A solução não é nova. Pelo contrário, já existiu e funcionou. Há cerca de 15 anos (mais ou menos), os campeonatos regionais tinham uma classificação reservada aos concorrentes inscritos e aos carros homologados para esses campeonatos. Todos os restantes podiam participar, mas integravam um rali extra, com classificação própria. Tinham tempos e tinham visibilidade, mas não interferiam na classificação geral da prova do campeonato regional.

Esse modelo parece-me muito mais justo e equilibrado. Permitiria manter a presença de carros de maior categoria (Rally2 e Rally4), que são uma mais-valia para organizadores, público e comunicação social, mas sem desvirtuar a competição principal. Os concorrentes dos regionais continuariam a ter o destaque que merecem, enquanto os participantes extra teriam o seu espaço próprio, sem apagar quem está efetivamente a disputar o campeonato.

A situação atual pode ser comparada, de forma simples, a permitir a participação de um Rally1 numa prova do Campeonato de Portugal de Ralis. Naturalmente, esse carro não pontuaria para o CPR. Mas, pela sua superioridade técnica, poderia vencer a prova à geral. Faria sentido considerar esse piloto o vencedor absoluto de uma ronda do Campeonato de Portugal, quando nem sequer poderia pontuar para esse campeonato? Dificilmente. Aliás, exemplos recentes, de anos anteriores, mostram que se arranjou um “esquema” para evitar esta situação.

Nos regionais passa-se algo semelhante. Os pilotos com carros não regulamentados para esses campeonatos não retiram pontos a ninguém, é certo. Mas retiram protagonismo. E, no desporto, sobretudo em campeonatos onde os apoios são muitas vezes difíceis de garantir, o protagonismo é quase tão importante como os pontos.

A FPAK deveria, por isso, olhar para esta questão com atenção. Não se trata de criar barreiras, mas de organizar melhor as realidades competitivas. Os regionais precisam de identidade própria, de coerência regulamentar e de reconhecimento para quem os disputa de forma regular. Os carros extra devem continuar a ter lugar, mas num enquadramento separado, claro e justo.

Voltar a essa fórmula seria proteger os campeonatos regionais sem empobrecer as provas. Seria garantir espetáculo sem sacrificar a verdade desportiva. Seria permitir que todos participassem, mas cada um no seu lugar.

No fundo, os regionais devem ser dos pilotos dos regionais.

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