
Gustavo Silva e Jorge Henriques, ao volante do Peugeot 208 Rally4 preparado pela Rego Jr Racing Garage, venceram o XV Rali Vinho do Pico, disputado a 16 e 17 de outubro. Com um tempo total de 53m46,5s, a dupla foi a mais rápida em quatro classificativas e comandou a prova desde a primeira especial disputada até à chegada à Madalena. É a primeira vitória à geral da carreira do jovem piloto no Campeonato dos Açores de Ralis — e chega pouco mais de um ano depois de se ter estreado nos ralis.
Ainda com o pó da festa no Pico por assentar, Gustavo Silva fez o balanço de um fim de semana que dificilmente esquecerá.
Uma entrada forte que acabou por ser decisiva
O arranque do rali foi atípico: a superespecial de abertura, na sexta-feira, acabou por ser interrompida devido a um incêndio numa moradia na freguesia das Bandeiras, que obrigou à intervenção dos Bombeiros Voluntários da Madalena. A verdadeira luta começou no sábado, em Frei Gigante, com o piso húmido a transformar a escolha de pneus numa decisão crucial.
“Quando vimos as condições da estrada, sentámo-nos todos à volta do carro e analisámos a situação com calma. Arriscámos numa opção de pneus que nos pareceu a mais certa e correu muito bem. Saímos de Frei Gigante 1 com 22,9 segundos de vantagem e percebemos logo que tínhamos uma oportunidade real”, recorda o piloto.
A partir daí, o desafio passou a ser outro. “O nosso aversário mais direto é um piloto muito rápido e sabíamos que ia atacar em todas as especiais. A nossa ideia foi nunca tirar o pé por completo, porque quando se começa a gerir demasiado é que surgem os erros. Mantivemos um ritmo forte, sem riscos desnecessários, e acabámos por ganhar por 9,6 segundos. Foi intenso até ao último quilómetro”, conta.
Jorge Henriques: a calma do lado direito
Gustavo Silva faz questão de partilhar o mérito com o navegador. “O Jorge foi fundamental. Num rali com piso a mudar, as notas têm de ser precisas e ele esteve perfeito do primeiro ao último troço. Mas o papel dele vai muito além das notas: passa-me tranquilidade, ajuda-me a manter a cabeça fria quando a pressão aperta e tem uma experiência que, para um piloto da minha idade, vale ouro. Esta vitória é tanto dele como minha.”
Rego Jr Racing Garage e a experiência de um campeão
O Peugeot 208 Rally4 é preparado pela Rego Jr Racing Garage, estrutura liderada por Luís Miguel Rego, campeão dos Açores de Ralis. O piloto micaelense não alinhou no Pico, mas fez questão de acompanhar a equipa na ilha, assumindo um papel de conselheiro.
“O carro esteve irrepreensível durante todo o rali e isso é mérito de toda a equipa da Rego Jr Racing Garage, que trabalhou sem parar para que nada falhasse. E ter o Luís Miguel Rego no Pico foi um privilégio enorme. Ele não estava a correr, mas esteve sempre connosco: nas decisões de pneus, nas afinações, na forma de abordar cada troço. A experiência que tem é imensa e cada conselho dele fez diferença. Aprender com o campeão dos Açores, ao vivo, num rali em que estamos a lutar pela vitória, é algo que não tem preço”, sublinha.
Os pais, os primeiros e maiores apoiantes
Para Gustavo Silva, os ralis sempre foram um assunto de família. Os pais, Marco e Tânia Silva, também eles com passado nos ralis regionais, levaram-no desde pequeno a acompanhar as provas e são hoje o principal suporte da sua carreira.
“Cresci nos parques de assistência, a ver o meu pai correr, e foi daí que nasceu o sonho. Os meus pais conhecem este mundo por dentro, sabem os sacrifícios que exige e nunca deixaram de acreditar em mim. Estão presentes em tudo: no apoio, na organização, nos momentos bons e nos menos bons. Sem eles, nada disto seria possível. Esta vitória é, acima de tudo, para eles.”
Uma vitória que também é do Faial
O apoio que chega da ilha natal é outro dos motores do jovem piloto. “Sinto um carinho enorme das pessoas do Faial. Recebi mensagens de muita gente — amigos, família, pessoas que nem conheço pessoalmente mas que acompanham os ralis e torcem por nós. Ter o nome do Faial no topo da classificação do Campeonato dos Açores é um orgulho muito grande. Corro sempre a pensar que represento a minha ilha.”
Do Saxo Cup à vitória absoluta em ano e meio
A progressão de Gustavo Silva tem sido rápida. A estreia aconteceu em maio de 2025, em casa, no Rali Ilha Azul – Cidade Mar, aos comandos de um Citroën Saxo Cup praticamente de série. O rali não chegou ao fim, mas os tempos deixaram indicações claras. O passo intermédio foi o Renault Clio Rally5 para depois subir de patamar com o Peugeot 208 Rally4, com o qual chegou ao pódio absoluto em abril de 2026, no Rali da Praia, com o terceiro lugar à geral e o segundo nas duas rodas motrizes.
Em maio, aproveitou a oportunidade de integrar o FPAK Júnior Team, estreando-se nos ralis do continente no Rally de Lisboa. Na Graciosa somou a primeira vitória nas duas rodas motrizes e, agora, no Pico, chegou ao triunfo absoluto.
“Quando olho para trás, nem eu acredito que passou tão pouco tempo. Comecei com um carro de iniciação, sem grandes expectativas, só com vontade de aprender. Cada rali foi uma escola. Tive também alguns contratempos esta época, mas foram esses momentos que me fizeram crescer. A experiência no FPAK Júnior Team abriu-me horizontes e mostrou-me outro nível de exigência. Esta vitória confirma que estamos no caminho certo, mas tenho os pés bem assentes no chão: ainda tenho muito para aprender”, afirma.
O futuro: talento à procura de parceiros
Com a última prova do campeonato — o Rali d’Angra – Ilha Lilás, na Terceira, a 13 e 14 de novembro — à porta, Gustavo Silva já pensa no que vem a seguir. E não esconde que o maior desafio está fora da estrada.
“Montar um projeto com qualidade nos Açores é muito difícil. Os custos são elevados e, ao contrário do continente, temos de transportar o carro de ilha em ilha para cada prova. Numa ilha pequena como o Faial, o tecido empresarial também é mais limitado. Por isso, tenho que agradecer a todos os patrocinadores que estão comigo desde o início e aos patrocinadores principais, a ERA e a Jocalçadas, Novo Rumo e o Restaurante R&A Kibom cujo apoio é absolutamente decisivo para continuarmos a evoluir.”
O piloto deixa, por isso, um apelo às empresas faialenses e de toda a região. “O Campeonato dos Açores de Ralis tem uma visibilidade enorme. Há cobertura constante na televisão, na rádio, nos jornais e nas redes sociais, e uma base de fãs muito grande em todas as ilhas — as pessoas vivem os ralis com uma paixão incrível. Para uma empresa, é uma montra única para chegar a todo o arquipélago. Gostava muito que as empresas do Faial, mas também de toda a região, olhassem para os ralis como um investimento em marketing com retorno real. Com esse apoio, acredito que podemos levar esta carreira muito mais longe — e levar o nome do Faial e dos Açores connosco.”



