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Onde está o público dos ralis em Portugal?

ESPETADORES NOS RALIS

Os ralis portugueses continuam a ter bons pilotos, excelentes carros e provas competitivas. Mas há uma realidade cada vez mais evidente para quem acompanha a modalidade: o público está a desaparecer de muitas classificativas. E talvez esteja na altura de perceber porquê.

Quem acompanha regularmente os ralis em Portugal, seja no Campeonato de Portugal de Ralis, nos campeonatos regionais ou noutras competições, dificilmente não terá reparado numa situação que se tem vindo a agravar nos últimos anos: a crescente ausência de público nas estradas.

Naturalmente, existem exceções. Há provas com uma enorme tradição, profundamente enraizadas nas populações locais, que continuam a mobilizar muitos espectadores. Mas, olhando para a generalidade dos ralis nacionais, a sensação é clara: há cada vez menos pessoas a acompanhar os concorrentes nas classificativas.

O Vodafone Rally de Portugal é, evidentemente, um caso à parte. É um fenómeno desportivo e popular, capaz de mobilizar centenas de milhares de espectadores, e cuja ausência do Mundial em 2027 representa uma perda enorme para a modalidade. Mas não é dessa realidade que estamos a falar.

Estamos a falar dos outros ralis. Daqueles que se realizam praticamente todos os fins de semana, de norte a sul do país e nas regiões autónomas. Daqueles em que, nalguns troços, já quase se contam mais fotógrafos, operadores de vídeo, elementos das equipas e familiares dos pilotos do que espectadores propriamente ditos.

E isto deveria preocupar seriamente todos os agentes da modalidade.

Há demasiados ralis?

Uma das primeiras questões que importa colocar é se não estaremos perante um excesso de oferta. Portugal tem inúmeros campeonatos, troféus e competições de ralis. Aos calendários nacionais e regionais juntam-se os Rally Sprints, as Super Especiais, os Motor Shows e outros eventos que, embora com formatos diferentes, acabam por disputar muitos dos mesmos protagonistas, carros e espetadores.

Só os campeonatos regionais do Norte, Centro e Sul apresentavam, nos calendários inicialmente anunciados para 2026, um total de 25 provas. É muita competição para um país com a dimensão de Portugal e com um universo relativamente limitado de praticantes e seguidores.

Esta multiplicação de eventos tem consequências. Dispersa os concorrentes, divide as atenções, reduz frequentemente a qualidade e a quantidade das listas de inscritos e retira a algumas provas a capacidade de mobilização que tiveram no passado.

Quando praticamente todos os fins de semana há um rali, o rali deixa de ser um acontecimento especial.

Ver ralis tornou-se demasiado caro

Existe outra realidade que não pode ser ignorada: acompanhar um rali representa hoje um investimento financeiro significativo.

Quem pretenda seguir uma prova do Campeonato de Portugal de Ralis, particularmente quando realizada longe da sua residência, facilmente terá de suportar duas noites de alojamento, combustível, portagens e alimentação. Mesmo algumas provas regionais implicam deslocações e uma noite fora de casa. Para uma família ou um grupo de amigos, o custo pode tornar-se suficientemente elevado para justificar a opção de ficar em casa.

É evidente que sempre existiram despesas associadas ao acompanhamento dos ralis. Mas os custos atuais da mobilidade, da restauração e do alojamento tornam muito mais difícil manter o hábito de viajar para acompanhar várias provas durante uma temporada. E quando esse hábito se perde, nem sempre é fácil recuperá-lo.

Regulamentos que afastam em vez de aproximar

Outro problema está relacionado com a crescente complexidade regulamentar da modalidade. Nos últimos anos, particularmente nos campeonatos regionais, assistimos a sucessivas alterações regulamentares, à criação de novas competições e à multiplicação de classificações.

Hoje, numa mesma prova, podem existir vários vencedores, correspondentes a diferentes campeonatos, categorias e troféus. Para quem acompanha os ralis há décadas, já nem sempre é simples perceber quem está verdadeiramente a disputar o quê. Imagine-se para o espetador ocasional, que apenas pretende deslocar-se à estrada para ver bons carros e perceber quem está a ganhar. A modalidade tornou-se demasiado complexa para quem está de fora.

Não está em causa a necessidade de existirem diferentes categorias e competições. Está em causa a dificuldade crescente em comunicar esse enquadramento de forma simples e compreensível. Um desporto que o público tem dificuldade em entender corre o risco de deixar de despertar interesse.

Muita comunicação digital, pouca promoção junto das populações

Talvez uma das questões mais importantes, e simultaneamente mais desvalorizadas, esteja na forma como os ralis são atualmente promovidos.

Nunca existiram tantos meios de comunicação disponíveis. Redes sociais, vídeos, transmissões televisivas, plataformas digitais e conteúdos de toda a natureza. Paradoxalmente, nunca foi tão evidente, em determinadas provas, a dificuldade em fazer chegar a informação às populações locais.

A comunicação dos ralis tornou-se excessivamente dependente das redes sociais, esquecendo muitas vezes os meios de comunicação tradicionais, sobretudo a imprensa regional. Durante décadas, os jornais regionais desempenharam um papel fundamental na promoção das provas. Era através deles que muitas populações conheciam os horários, os percursos, os pilotos participantes e a importância do acontecimento para a sua região. Hoje, essa ligação parece estar a perder-se (se já não acabou).

Há clubes que praticamente deixaram de enviar informação às redações. Há provas do próprio Campeonato de Portugal de Ralis que passam sem um único comunicado enviado por correio eletrónico aos órgãos de comunicação. E se a informação não chega, dificilmente será publicada, sobretudo nos meios não especializados, que têm cada vez menos recursos para procurar notícias sobre acontecimentos desportivos, nomeadamente ralis.

O resultado é simples: menos informação significa menos pessoas a saber que o rali se vai realizar. Não é assim tão raro encontrar populações que desconhecem que uma prova vai passar perto das suas localidades. Isto deveria fazer-nos refletir.

Promover depois da prova não é o mesmo que atrair público

É verdade que os ralis têm atualmente uma presença televisiva e digital muito superior à de outros tempos. Existem resumos, reportagens, entrevistas e imagens que continuam a ser difundidos vários dias depois das provas. Mas há uma diferença fundamental entre divulgar um evento que já aconteceu e promover um evento para que as pessoas queiram assistir. É precisamente nesta segunda vertente que parece existir uma das maiores falhas (embora na primeira também existam).

A promoção deveria começar muito antes da realização das provas, envolvendo as populações, despertando curiosidade, dando a conhecer os protagonistas e criando expectativa em torno do acontecimento.

Em vez disso, investe-se frequentemente em conteúdos centrados na própria organização e na visibilidade institucional, sem que seja claro o seu verdadeiro contributo para levar espetadores à estrada. A própria FPAK tem investido na comunicação e divulgação dos ralis. Mas é legítimo questionar se esse investimento está a ser feito da forma mais eficaz e se tem realmente contribuído para aumentar a presença de público. Não basta produzir conteúdos, é preciso chegar às pessoas certas e, sobretudo, fazê-lo antes dos eventos.

E os ralis ao domingo?

Existe ainda uma questão que merece reflexão: a crescente realização de provas ao domingo. Não se trata de defender que os ralis não possam decorrer nesse dia. Existem condicionantes organizativas, logísticas e de calendário que muitas vezes justificam essa opção.

Mas também é verdade que, em muitas regiões, particularmente no interior do país, os hábitos das populações são diferentes ao sábado e ao domingo. Existem tradições familiares, atividades locais e outras rotinas que podem condicionar a disponibilidade para assistir a uma prova automóvel.

Em localidades onde os ralis sempre tiveram uma forte tradição ao sábado, a alteração desses hábitos poderá também estar a contribuir para a redução do público. Não será seguramente a principal causa, mas é mais um fator que merece ser analisado.

O mais preocupante é que esta situação não resulta necessariamente da falta de qualidade desportiva. O Campeonato de Portugal de Ralis continua a apresentar bons pilotos, máquinas competitivas e disputas interessantes.

Mesmo nos regionais existem provas com excelentes listas de inscritos e concorrentes capazes de proporcionar um grande espetáculo. No entanto, isso já não parece ser suficiente para atrair espetadores. Até as tradicionais sessões de autógrafos, que deveriam aproximar os pilotos dos adeptos, revelam frequentemente uma participação reduzida, salvo algumas exceções. É um sinal de que a ligação entre os ralis e o público está a enfraquecer.

E não podemos continuar a olhar para esta realidade como se fosse apenas uma consequência inevitável da evolução dos tempos. É verdade que os mais jovens têm hoje inúmeras alternativas de entretenimento, que os hábitos mudaram e que o desporto automóvel disputa a atenção com muitas outras atividades. Mas será essa explicação suficiente?

Um problema que ninguém parece querer enfrentar

O que mais surpreende é a aparente ausência de uma estratégia concertada para contrariar esta tendência. Cada clube organiza e promove a sua prova à sua maneira. Existem iniciativas interessantes e organizadores que fazem um excelente trabalho, mas falta uma visão mais abrangente sobre a necessidade de recuperar espetadores.

E essa responsabilidade não pode ser atribuída apenas aos clubes. A federação, os promotores dos campeonatos, as autarquias e os restantes agentes da modalidade têm também um papel a desempenhar.

Não podemos avaliar o sucesso de um rali apenas pelo número de inscritos, pela qualidade dos carros, pela cobertura televisiva ou pelo impacto mediático conseguido.

O público presente nas classificativas continua a ser uma parte essencial da identidade dos ralis. Sem espectadores, perde-se ambiente, perde-se envolvimento das populações, perde-se interesse comercial e, inevitavelmente, perde-se parte da essência da própria modalidade.

Talvez esteja na altura de deixar de assumir que os adeptos aparecerão naturalmente à beira da estrada apenas porque se realiza mais um rali. Porque a verdade é que muitos já não aparecem.

E, enquanto continuarmos a multiplicar eventos, a complicar regulamentos, a comunicar sobretudo para quem já conhece a modalidade e a esquecer as populações locais, dificilmente conseguiremos inverter esta tendência.

O primeiro passo é reconhecer que existe um problema. Depois, será necessário discutir o que fazer para recuperar o público. Mas essa será uma reflexão para outra ocasião.

Para já, fica uma pergunta que todos os que vivem e gostam dos ralis portugueses deveriam colocar: onde está o público que antes enchia as nossas classificativas?

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