
A primeira edição do Freita Mythic Rally Stage revelou-se um êxito, cumprindo o objetivo de recriar o espírito único da emblemática classificativa da Freita. Pilotos de nomeada, máquinas icónicas e forte adesão do público ao longo de dois dias vividos intensamente em Arouca e na Serra da Freita foram a chave do sucesso.
A mítica classificativa da Freita, palco de algumas das páginas mais marcantes da história dos ralis em Portugal, voltou a ganhar vida num formato inovador que cruzou evocação, espetáculo e proximidade com o público. Reconhecida pela sua exigência técnica, imprevisibilidade e ligação emocional a várias gerações, a Freita reafirmou, neste reencontro, o porquê de continuar a ocupar um lugar especial no imaginário coletivo dos adeptos.
Mais do que um evento isolado, esta estreia assinalou o arranque do projeto Mythic Rally Stage da XRacing, uma iniciativa inédita em Portugal que pretende recriar classificativas lendárias, respeitando a sua identidade e devolvendo-lhes protagonismo através das máquinas e dos protagonistas que as marcaram.
Com assinalável êxito, foi assim escrito o primeiro capítulo deste projeto, confirmando não só o interesse do público, como também o potencial de continuidade de um conceito que alia património desportivo, território e emoção.
Primeiro dia vivido com entusiasmo e memória
O primeiro dia do evento, organizado desportivamente pelo Targa Clube, foi já vivido com intensidade, mesmo sem qualquer passagem pela classificativa da Freita. Nem por isso diminuiu o interesse do público pelo regresso dos ralis a Arouca, proporcionando o primeiro contacto entre os espectadores e os emblemáticos carros presentes. Durante mais de duas horas, um autêntico banho de multidão coloriu e animou o espaço reservado à exposição das máquinas, no centro da vila.
Mas esse foi apenas o primeiro momento de um dia marcado pela evocação e partilha. A tertúlia “A classificativa da Freita” — que pode ser vista na íntegra em bit.ly/4e8Vj3E — tornou-se num dos pontos altos do programa, reunindo, na Biblioteca Municipal de Arouca, alguns dos protagonistas que ajudaram a construir a história desta especial.
Perante uma plateia atenta, que contou também com a presença e participação da Presidente da Câmara Municipal de Arouca, Margarida Belém, nomes como Fernando Peres, Ricardo Caldeira, Jorge Ortigão, Fernando Batista, Nuno Pinto, Pedro Leal e Miguel Paião partilharam memórias, episódios e bastidores de uma classificativa que permanece viva no imaginário dos adeptos.
Entre histórias de superação, momentos de tensão, episódios curiosos e até humorísticos, ficou evidente a forte ligação emocional à Serra da Freita. Num ambiente informal, a conversa percorreu diferentes épocas dos ralis, destacando a exigência única da classificativa, as suas particularidades técnicas e os desafios impostos pelas condições atmosféricas — fatores que sempre lhe conferiram um estatuto especial.
A jornada terminou com a Partida Simbólica, no centro de Arouca, num ambiente de grande proximidade entre público e participantes, reforçando o caráter celebrativo do evento.
Segundo dia levou emoções para a estrada
No segundo dia, a atenção centrou-se naturalmente na Serra da Freita, com a realização de três passagens pela classificativa que deu nome ao evento. Num cenário exigente e tecnicamente desafiante, os participantes tiveram oportunidade de experimentar — e reviver — uma das estradas mais marcantes da história dos ralis nacionais, proporcionando também ao muito público presente momentos de grande espetáculo ao longo do percurso.
Mas uma vez Freita… para sempre Freita! Conhecida pelo seu rigor e grau de exigência, a classificativa voltou a demonstrar o respeito que impõe, mesmo num contexto evocativo. Uma saída de estrada, na segunda passagem, do piloto Fernando Peres obrigou à imposição de um ritmo mais lento numa das zonas do troço durante a derradeira passagem.
Ainda assim, o Tricampeão nacional de ralis fez questão de sublinhar que o incidente em nada beliscou o evento: “foi uma festa enorme, que mostrou a força dos ralis, o que movimentam e as emoções que despertam. Conseguimos também passar uma imagem muito real do que são os ralis a quem decide, e saio daqui com a certeza de que vamos ter ralis durante muitos anos”. Um testemunho que reforça o impacto global da iniciativa e a forma como foi vivida dentro e fora da estrada.
Aliás, já antes, durante a primeira passagem, alguns pilotos somavam também episódios inesperados, como foi o caso de Ruben Lopes, que viveu um momento insólito ao ver o acelerador do seu Porsche 911 SC ficar “colado” à saída de uma curva. Situação resolvida com engenho e humor: “foi um susto grande, mas conseguimos resolver com ‘engenharia caseira’, usando um cinto elástico para fazer o retorno do acelerador, o que nos permitiu chegar à assistência”.
Como se dúvidas houvesse que a essência desta classificativa também passa por deixar memórias bem vivas a quem a percorre e, por vezes, obriga mesmo a estimular a imaginação para resolver contratempos.
Pilotos destacam emoção e exigência da Freita
Nem estes contratempos retiraram brilho ao Freita Mythic Rally Stage, com os participantes a evidenciarem entusiasmo e reconhecimento pela singularidade do evento.
Ao volante do Audi Sport Quattro S1 E2, Nuno Pinto protagonizou um dos momentos mais aguardados, levando à Freita um Grupo B que, por razões históricas, nunca ali tinha passado. “A Freita é ainda mais difícil do que imaginava. É difícil transmitir o quão exigente e até assustador pode ser explorar um carro destes neste troço, onde na zona do planalto atingimos os 210 km/h a explorar os 600 cavalos do motor! Mas foi um sonho concretizado”, afirmou.
Já Vítor Pascoal, aos comandos de um Porsche 991 GT3, destacou a exigência da classificativa: “é um troço extremamente técnico, com variações constantes. Num carro destes, há momentos em que parece um Safari”.
Num registo distinto, mas igualmente marcante, Fernando Batista, aos 87 anos, voltou a deixar a sua assinatura: “passei um dia que não esquecerei, voltando a uma classificativa que me traz muitas memórias e que continua a ter uma exigência tremenda”.
Organização e município fazem balanço muito positivo
Da parte do promotor do evento, liderado por Pedro Ortigão, responsável da XRacing, o balanço é claramente positivo: “estamos muito satisfeitos com esta primeira edição. A adesão do público, tanto na partida simbólica como na classificativa, foi extraordinária e é o melhor reconhecimento que poderíamos ter”.
O responsável destacou ainda o futuro do projeto: “em 2027 queremos voltar, fazer ainda melhor e tentar concretizar o objetivo de uma passagem noturna, para recriar ainda mais a tradição da Freita”.
Também o Município de Arouca sublinhou o impacto do evento. Para a Presidente Margarida Belém, “foi uma aposta ganha, num evento que valoriza a história e a identidade do território, conciliando natureza, património e desporto”. A autarca destacou ainda a experiência vivida como co-piloto ao lado de Fernando Peres: “foi extraordinária, percebendo de perto a adrenalina e a exigência da classificativa”.
Com uma estreia bem-sucedida, o Freita Mythic Rally Stage afirmou-se como um novo capítulo na valorização da memória dos ralis em Portugal. Depois deste primeiro reencontro com a história, fica agora a expectativa – e a vontade coletiva – de regressar à Serra da Freita já em 2027. E a contagem decrescente já começou…



