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Pontuações dos ralis do CPR levantam dúvidas sobre os critérios de avaliação

CAMPEONATO DE PORTUGAL DE RALIS 2026

Com sete das nove provas do Campeonato de Portugal de Ralis de 2026 já avaliadas, as pontuações dos relatórios federativos começam a revelar diferenças importantes entre os eventos. Contudo, mais do que os números, é a subjetividade de alguns critérios de avaliação que levanta dúvidas, sobretudo quando os resultados podem determinar a continuidade das provas no campeonato.

As pontuações dos relatórios de avaliação das provas do Campeonato de Portugal de Ralis (CPR) de 2026 começam a permitir uma primeira análise sobre o desempenho organizativo dos diferentes eventos e, sobretudo, sobre as possíveis consequências que estas classificações poderão ter na definição do calendário da próxima temporada.

Com o campeonato ainda por terminar, faltando disputar o Rali Vidreiro Centro de Portugal, já são conhecidas as pontuações de sete das nove provas que integram o calendário. Falta também conhecer a avaliação do recente Rally 6 Cities North of Portugal, cujo relatório deverá ficar disponível nas próximas semanas.

Entre as provas já avaliadas, o Vodafone Rally de Portugal destaca-se claramente, com 659 pontos, seguindo-se o Rali da Madeira, com 551, e o Rali da Água Transibérico Eurocidade Chaves-Verín, com 549 pontos.

O Rali de Castelo Branco e Vila Velha de Ródão surge na posição seguinte, com 516 pontos, enquanto o Rali Terras d’Aboboreira soma 473 pontos. Nas duas últimas posições encontram-se o Rallye Casinos do Algarve, com 407 pontos, e o Rali de Lisboa, com 405.

Dois pontos podem fazer a diferença entre ficar ou sair do CPR

Uma das questões mais relevantes desta classificação prende-se com a proximidade entre algumas pontuações. Entre o Rali da Madeira e o Rali da Água existem apenas dois pontos de diferença. Exatamente a mesma diferença separa o Rallye Casinos do Algarve do Rali de Lisboa.

Numa avaliação baseada exclusivamente em critérios objetivos e perfeitamente mensuráveis, estas diferenças seriam relativamente fáceis de interpretar. Contudo, os relatórios incluem também diversos critérios de natureza subjetiva, cuja avaliação depende da interpretação de quem os aplica. E é precisamente aqui que reside um dos principais problemas deste modelo.

Sem conhecer detalhadamente os relatórios, os critérios valorizados e as justificações para as pontuações atribuídas, torna-se impossível perceber até que ponto uma determinada avaliação subjetiva poderá ter influenciado a classificação final de uma prova.

Alguns desses critérios são, inclusivamente, discutíveis quanto à sua pertinência para determinar a qualidade global de um rali. Há aspetos que poderiam perfeitamente integrar um conjunto de recomendações destinadas a melhorar os eventos, em vez de contribuírem diretamente para uma pontuação que pode condicionar o seu futuro.

A questão ganha particular importância quando se sabe que o calendário de 2027 deverá ser reduzido a oito provas.

Nestas circunstâncias, uma diferença de apenas dois pontos, eventualmente resultante da interpretação subjetiva de um determinado parâmetro, poderá acabar por ter consequências muito mais relevantes do que seria razoável esperar.

Não está demonstrado que qualquer uma destas diferenças resulte de critérios subjetivos. Mas, enquanto não forem conhecidos os relatórios e as respetivas fundamentações, também não será possível afastar essa possibilidade.

Transparência dos relatórios torna-se essencial

A existência de avaliações organizativas é positiva e pode contribuir para melhorar a qualidade do Campeonato de Portugal de Ralis. O problema não está necessariamente na avaliação das provas, mas na forma como os critérios são definidos, aplicados e, sobretudo, explicados aos organizadores.

Quando uma pontuação poderá influenciar a manutenção de um rali no principal campeonato nacional da modalidade, o processo deveria assentar em critérios claros, uniformes, verificáveis e suficientemente objetivos.

Caso contrário, será inevitável que surjam dúvidas sobre as diferenças de avaliação entre eventos, particularmente quando as pontuações são muito próximas. A não divulgação detalhada dos relatórios também não contribui para dissipar essas dúvidas. Pelo contrário, poderá acentuar as divergências que já existem entre alguns clubes organizadores e a Federação Portuguesa de Automobilismo e Karting (FPAK), sobretudo se os resultados acabarem por justificar alterações ao calendário.

A transparência é, por isso, uma condição fundamental para que este sistema de avaliação conquiste a confiança dos intervenientes.

Castelo Branco: pontuação volta a levantar questões sobre a decisão federativa

Outra conclusão interessante que se pode retirar destas classificações (desta época) diz respeito ao Rali de Castelo Branco e Vila Velha de Ródão.

Recorde-se que, no início da temporada, a FPAK determinou que os pilotos teriam de escolher entre o Rali de Castelo Branco e o Rali de Lisboa para efeitos de pontuação no Campeonato de Portugal de Ralis.

Tratou-se de uma decisão federativa que colocou as duas provas numa situação particular dentro do calendário.

Ora, analisando as pontuações agora conhecidas, verifica-se que o Rali de Castelo Branco obteve 516 pontos, ficando à frente de três provas: Terras d’Aboboreira, Casinos do Algarve e Lisboa. Ou seja, de acordo com a avaliação realizada em 2026, Castelo Branco está longe de ser a prova com menor pontuação.

Naturalmente, não é possível extrapolar diretamente estes resultados para temporadas anteriores, uma vez que não estão aqui em análise os respetivos relatórios (nem foram conhecidas as pontuações dos anos anteriores). Contudo, admitindo que a qualidade organizativa das provas não sofreu alterações substanciais de um ano para outro, estes números justificam uma reflexão.

Por que razão foram precisamente Castelo Branco e Lisboa as provas sujeitas à decisão de escolha por parte dos pilotos? Que fundamentos objetivos sustentaram essa opção? E, sobretudo, como se enquadra essa decisão nas avaliações agora conhecidas?

São questões legítimas que os resultados de 2026 voltam a colocar em cima da mesa.

O futuro do Rally 6 Cities também merece reflexão

Outra incógnita diz respeito ao Rally 6 Cities North of Portugal, cuja edição de 2026 ficou marcada por fortes críticas de vários concorrentes nacionais em relação ao Campeonato de Portugal de Ralis (mesmo sabendo que a Demoporto apenas aplicou e bem as regras).

O facto de a prova integrar simultaneamente o Campeonato da Europa de Ralis (ERC) e o Campeonato de Portugal de Ralis deu origem a uma situação particularmente controversa… que todos já sabiam previamente.

Na prática, os concorrentes do CPR ficaram divididos em dois grupos, com alguns pilotos a partirem integrados no pelotão europeu e outros a competirem bastante mais atrás, encontrando condições de estrada e de luz muito diferentes. A situação motivou críticas à igualdade das condições competitivas entre concorrentes do mesmo campeonato (o CPR).

Independentemente da pontuação que venha a ser atribuída à organização, este é um problema que terá necessariamente de ser analisado na preparação da próxima temporada. Se o Rally 6 Cities continuar a integrar o CPR (como é natural que venha a acontecer), será importante encontrar um modelo que assegure condições competitivas mais equilibradas para os concorrentes nacionais. Caso tal não seja possível, a própria continuidade da prova no campeonato poderá justificar uma discussão mais aprofundada.

Calendário de 2027 promete decisões difíceis

As pontuações dos relatórios são apenas uma das variáveis que poderão entrar na definição do próximo calendário.

A eventual entrada de provas como o Azores Rallye (ou Rali Volta à Ilha) acrescenta novos elementos a uma equação que já se apresenta complexa.

Também o futuro da presença do Automóvel Club de Portugal no CPR terá de ser esclarecido rapidamente, atendendo a que o Vodafone Rally de Portugal saiu do calendário do Mundial de Ralis.

Com a indicação federativa de que o Campeonato de Portugal de Ralis terá apenas oito provas em 2027, as decisões sobre entradas, saídas e continuidade dos atuais eventos deverão assumir particular importância. E é precisamente por isso que os relatórios de avaliação ganham uma dimensão que ultrapassa largamente uma simples classificação da qualidade organizativa.

Os números agora conhecidos permitem identificar diferenças entre as provas, mas não explicam, por si só, as razões que estiveram na origem dessas diferenças.

É legítimo questionar se essas diferenças correspondem efetivamente a desempenhos organizativos distintos ou se poderão resultar, pelo menos parcialmente, da subjetividade de determinados critérios.

A avaliação das organizações deve ser um instrumento para melhorar o campeonato, elevar os padrões de qualidade e incentivar os clubes a evoluir. Mas, se também servir para determinar que provas permanecem ou deixam de integrar o CPR, então a exigência de rigor, objetividade e transparência terá de ser necessariamente maior.

Porque uma coisa é avaliar para melhorar. Outra, bem diferente, é permitir que critérios de interpretação subjetiva possam acabar por decidir o futuro de uma prova (ou várias) no Campeonato de Portugal de Ralis.

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