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Pode o Volta à Ilha de São Miguel subir ao CPR 2027?

CAMPEONATO DE PORTUGAL DE RALIS

O Grupo Desportivo Comercial fez praticamente tudo aquilo que estava ao seu alcance para demonstrar que o Volta à Ilha de São Miguel by Azores Rally tem condições para integrar o Campeonato de Portugal de Ralis em 2027.

Dentro dos meios e do orçamento disponíveis, pouco parece ter faltado. Talvez a presença de um ou dois nomes fortes, ou de uma equipa de reconhecida dimensão nacional, pudesse ter ajudado a projetar ainda mais a candidatura fora dos Açores. Mas, em praticamente tudo o resto, esta foi uma prova regional organizada e apresentada como se já pertencesse ao Campeonato de Portugal de Ralis.

É evidente a enorme vontade do Grupo Desportivo Comercial, e particularmente de Luís Pimentel, em levar novamente uma prova organizada pelo clube ao principal campeonato nacional. E essa vontade ficou demonstrada através do profissionalismo colocado na organização, recorrendo muitas vezes à “prata da casa” e aproveitando toda a experiência acumulada ao longo de décadas de Rali dos Açores.

Também São Miguel respondeu. Sobretudo no sábado, foram muitos os açorianos que estiveram junto aos troços, mostrando que continuam a gostar de ralis e que existe público para uma prova desta dimensão. É também um sinal importante para quem tem de avaliar a candidatura.

Naturalmente, os observadores poderão identificar aspetos a melhorar. Isso acontece em qualquer prova. Porém, do que foi possível observar, os troços estavam bem preparados e são, objetivamente, um dos grandes argumentos desta candidatura.

São Miguel dispõe de especiais absolutamente extraordinárias. Não estamos apenas a falar de troços históricos dos ralis açorianos, mas de classificativas que fazem parte do património dos ralis portugueses e, em alguns casos, internacionais. Sete Cidades é o exemplo mais evidente. Poucos ralis conseguem oferecer um cenário com esta dimensão e reconhecimento.

Desportivamente, também foram reunidas condições muito próximas das existentes numa prova do CPR. Estiveram presentes viaturas Rally2 e R5, juntamente com competitivos carros de duas rodas motrizes, incluindo Rally4, garantindo qualidade ao plantel e interesse competitivo. A prova decorreu igualmente sem qualquer caso relevante de segurança, outro fator naturalmente importante numa candidatura deste género. Talvez a melhorar a Super-Especial de Ponta Delgada, nomeadamente o ritmo em que a mesma se realizou.

Então, o que falta?

Falta continuar a trabalhar.

Uma candidatura ao Campeonato de Portugal de Ralis não se conquista apenas na estrada. Também exige influência, capacidade de relacionamento institucional e algum lobbying junto das entidades federativas e das próprias equipas, que naturalmente terão uma palavra a dizer sobre o interesse desportivo e financeiro de uma deslocação aos Açores.

É igualmente fundamental aumentar a base de apoio da prova. São necessários mais patrocinadores privados, empresas que percebam o potencial que um evento desta natureza oferece para promover marcas, produtos e serviços.

Mas é sobretudo importante reforçar o envolvimento institucional do Governo Regional dos Açores. Existiu apoio nesta edição e ele foi reconhecido pela organização, mas seria desejável uma presença institucional mais forte nos principais momentos da prova. Uma candidatura deste género ganha inevitavelmente outra força quando existe um alinhamento evidente entre organização, municípios, Governo Regional, parceiros privados e restantes entidades.

Há ainda trabalho a desenvolver na comunicação para fora da ilha. Ao nível das redes sociais e, particularmente, das transmissões em streaming, o Volta à Ilha de São Miguel apresentou um trabalho que está seguramente entre o melhor que atualmente se faz nos ralis portugueses. Foi uma das áreas de maior destaque desta edição do ponto de vista da comunicação.

Mas uma candidatura ao CPR precisa também de ganhar notoriedade no continente. Isso passa por uma assessoria de imprensa mais abrangente, maior distribuição de informação, mais conteúdos para os órgãos de comunicação social nacionais no seu todo e uma estratégia que consiga colocar regularmente o nome da prova fora dos Açores.

Quanto maior for o reconhecimento nacional do Volta à Ilha de São Miguel, maior será também a sua força no momento das decisões.

Naturalmente, haverá agora um relatório de observação e seguramente alguns pontos a corrigir. É perfeitamente normal. Não existe uma prova perfeita e também as atuais provas do Campeonato de Portugal de Ralis têm aspetos que podem ser melhorados.

Globalmente, porém, o balanço desta edição parece claramente positivo. Na realidade, em determinados aspetos, o Volta à Ilha de São Miguel apresentou até condições superiores às observadas em algumas provas que integraram recentemente o Campeonato de Portugal de Ralis.

Por isso, considero que seria importante para o próprio CPR poder contar com esta prova.

São Miguel oferece estradas fantásticas, paisagens únicas, tradição automobilística, público e uma organização experiente. Ao mesmo tempo, o regresso de uma prova açoriana ao campeonato permitiria recuperar uma dimensão nacional que o CPR também deve procurar preservar.

Agora é necessário fazer o resto do trabalho: garantir mais apoios, reforçar o envolvimento do Governo Regional, convencer equipas e entidades federativas e continuar a projetar a prova no continente.

Existe ainda outro argumento que não deve ser ignorado. Num contexto em que se fala numa possível desaceleração do turismo regional, o automobilismo pode continuar a ser uma extraordinária ferramenta de promoção de São Miguel e dos Açores. Poucas modalidades conseguem mostrar uma ilha, as suas paisagens e a sua identidade a milhares de pessoas da mesma forma que um rali.

O Volta à Ilha de São Miguel mostrou que quer chegar ao Campeonato de Portugal de Ralis. E, depois do que se viu nesta edição, mostrou também que tem argumentos para lá estar.

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